Columnas

13 de junio de 2016

Jornal peruano projeta derrota do fujimorismo em eleição presidencial

Por Cristóbal Rovira
Cristóbal Rovira, académico de la Escuela de Ciencia Política UDP

Cristóbal Rovira, académico de la Escuela de Ciencia Política UDP

Análise do periódico La República dá vitória apertadíssima para Pedro Pablo Kuczynski – Fuerza Popular de Keiko Fujimori será força dominante no Legislativo

Com 97,1% das urnas apuradas no Peru, o economista de centro-direita Pedro Pablo Kuczynski (PPK) aparece com uma vantagem de menos de 1% em relação à adversária, a ex-parlamentar Keiko Fujimori, no segundo turno das eleições presidenciais do país, realizado no domingo (5): o resultado preliminar aponta para uma vitória apertadíssima de PPK, que por ora detém 50,1% dos votos válidos, contra 49,8% de Keiko. Uma análise feita pelo jornal peruanoLa República coloca a vantagem de PPK como “irreversível”. A contagem final, que contabilizará votos vindos do exterior, é esperada para o fim desta semana – uma sondagem feita pela consultoria GFK e publicada pelo jornal peruano El Comercio indica PPK com uma vantagem de 5,6 pontos em relação a Keiko entre eleitores que moram em outros países.

O indicativo de vitória para o economista e ex-executivo do Banco Mundial de 77 anos contraria as últimas pesquisas eleitorais divulgadas às vésperas do segundo turno, que apontavam para uma vantagem entre 5 e 7pontos para Keiko. Nesse sentido, o resultado mostra que o movimento antifujimorista ganhou tração nas últimas semanas, com manifestações contra Keiko que mobilizaram milhares de pessoas nas ruas de Lima e em outros distritos. Na semana passada, Verónika Mendonza, candidata da coalizão de esquerda Frente Amplio (Frente Ampla), que ficou em terceiro lugar no primeiro turno do pleito presidencial, também declarou seu apoio a PPK como “voto crítico” e única forma de impedir a volta do fujimorismo ao poder. “Seremos uma oposição fiscalizadora e seguiremos fortalecendo a Frente Ampla para as verdadeiras mudanças que nosso país necessita”, declarou Mendonza.

Keiko é filha do ex-ditador peruano Alberto Fujimori, que governou o país na década de 1990 e hoje está preso, condenado por crimes contra a humanidade e corrupção. Conduzindo uma campanha ambígua em relação ao legado do pai, qualificando seus crimes como “erros” e enfatizando a postura linha dura na segurança, a administradora e ex-parlamentar é apontada como herdeira do projeto fujimorista, de viés populista de direita, encampado pelo ex-ditador. Pesaram também as denúncias de envolvimento com o narcotráfico por parte de Joaquín Ramírez, parlamentar e, até mês passado, secretário-geral do Fuerza Popular (Força Popular), partido de Keiko. A divulgação de que o Departamento de Combate às Drogas americano (DEA, em sua sigla em inglês) investiga Ramírez serviu de munição a PPK contra Keiko e reforçou as suspeitas entre o público, nutridas desde o governo de Alberto Fujimori, da existência de laços entre o narcotráfico e os fujimoristas no Peru.

A margem apertada do resultado ainda indica que, se confirmada a vitória de Pedro Pablo Kuczynski, o novo presidente chega ao poder fragilizado pela polarização política no eleitorado do país, além de ter de lidar com um Legislativo de maioria fujimorista. Na primeira rodada das eleições, o Fuerza Popular levou a maioria das cadeiras do Congresso peruano. O partido de Kuczynski, Peruanos Por el Kambio (Peruanos Pela Mudança), ficou em segundo lugar, seguido pela Frente Amplia, de esquerda e oposição já declarada ao programa de direita de Kuczynski. “Os resultados do primeiro e do segundo turno, não somente em termos de percentagem de votos que Kuczynski obteve, mas também em termos da formação do Congresso, mostram que ele será um presidente débil, que terá de enfrentar desafios importantes no Legislativo e que terá de negociar com o partido de sua adversária para levar adiante seu programa de governo”, diz Maria Luisa Puig, analista de América Latina da consultoria Eurasia.

Cristóbal Rovira Kaltwasser, coautor do livro The resilience of the latin american right (A resiliência da direita latino-americana) e professor da Universidade Diego Portales, no Chile, concorda com a avaliação. “PPK se verá obrigado a realizar alianças estratégicas com diversos atores no Parlamento, que votarão com base em seus próprios interesses e poderão pressionar o presidente. A pergunta da governabilidade se instalará imediatamente no Peru, posto que PPK terá uma posição muito débil no Congresso e, portanto, não terá muita margem de manobra para fazer grandes reformas”, diz Kaltwasser.

PPK também terá de responder à demanda da população por segurança, um dos principais temas que dirigiu a campanha presidencial peruana. A pesquisa Barômetro das Américas, realizada em 25 países do continente, mostra que, entre 2004 e 2014, os peruanos que elencavam segurança como o principal problema do país subiram de 10% para 46%. Um dos resultados da descrença no Estado em garantir sua segurança é a verdadeira epidemia de grupos de justiceiros e linchamentos de “delinquentes” e criminosos feitos pelo público que tomou conta do interior do Peru. Na capital, Lima, em bairros de classe média e classe alta, moradores se valem de cercas e muros altos para fechar ruas para o trânsito de pessoas de fora e prometem “captura e castigo” por rondas particulares.

Ainda assim, em termos econômicos, o projeto de PPK deve contar com o apoio dos fujimoristas no Congresso. “Kuczynski vai poder levar adiante sua agenda econômica. A razão principal para isso é que, na realidade, ele e Keiko têm mais similaridades que diferenças em termos de política econômica e de investimentos”, diz Puig. “Apesar da polarização, ele pode conseguir que a maioria de Keiko apoie suas nomeações para o time econômico e para suas medidas em termos macroeconômicos e de investimentos. Por exemplo, um maior impulso fiscal para aumentar o investimento em infraestrutura, que é algo que também estava previsto na plataforma de Keiko”, afirma a analista.

A pesar da expectativa de derrota no pleito presidencial, o fujimorismo resiste como a principal força política do país. O Peru sofre historicamente com um sistema partidário fraco, sem legendas majoritárias com ampla penetração entre os eleitores. Nesse contexto, sem uma reforma eleitoral no horizonte, Keiko Fujimori deve seguir se beneficiando da máquina partidária herdada do pai. “O partido de Keiko terá um papel muito importante durante os cinco anos de governo, mesmo que ela não tenha sido eleita presidente. O Fuerza Popular se converteu no partido mais forte no atual contexto peruano”, diz Puig.

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